Paquera ou Ataque?

Se os homens do Sri Lanka sabem o que é flerte e conhecem as sutilezas de sedução.. não é bem isso que eles demonstram ao abordar mulheres estrangeiras!

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Estou vivendo há quase um ano no Sri Lanka e já acostumei a ser encarada, observada, quase que “escaneada” por grande parte das pessoas locais. O problema é quando os homens me abordam de um jeito tão agressivo que extrapola os limites da paquera.

TUDO AO CONTRÁRIO

Não pensem que estou exagerando ou “me achando”. O que motiva do assédio é apenas meu biótipo. Faço parte de uma minoria extremamente valorizada pelo simples fato de ter a pele clara – o preconceito funciona às avessas por aqui –  ser mulher e ocidental. Isso parece significar que sou liberal e estou à procura de diversão, que estou “facinha”, por assim dizer, no imaginário local.

Enquanto os brasileiros até disfarçam ao olhar para o corpo de uma mulher (esperam que ela passe para dar a clássica conferida no tamanho do bumbum), aqui os caras fazem de tudo para que a gente note isso. Então eles passam à nossa frente, na calçada, e seguem virando a cabeça para lançar olhares libidinosos em nossa direção.

SEM NOÇÃO

Quando saio de bicicleta é sempre uma comoção. O Carnaval de buzinas que anima as ruas fica ainda mais intenso. Tenho que redobrar a atenção porque muitas motos, tuktuks e até motoristas dão um jeito de emparelhar para falar comigo: “uériu frão?”, “uériu gôuing?”, “véri náice”. Fechadas e manobras arriscadas fazem parte do pacote, piorando o já perigoso trânsito da cidade.

Um cara pisou no meu pé para, ao pedir desculpas, tentar conversar comigo no ônibus.  Respondi educadamente e mudei aliviada para um lugar mais à frente. Minutos depois, uma maleta bateu forte no meu ombro. Dá pra adivinhar quem era? Não havia empurra-empurra que justificasse o safanão e nosso amigo já emendou uma pergunta no “exquiuse me” pra não perder mais tempo. Pensei em descer no próximo ponto, mas fiquei com medo de que ele me seguisse. Então levantei e respondi bem alto: “I’m not interested in talking to you, please back off”.

Fui assim educada porque isso aconteceu nos meus primeiros dias aqui. Logo passei a responder com o melhor da nossa Língua Portuguesa – deixo para vocês adivinharem o calão das palavras. Mas quando um tuktuk emparelhou com minha bike e o motorista apalpou minha bunda… nem consegui encontrar palavras para expressar minha raiva!

VIRANDO NINJA

Sempre fui meio capenga na bicicleta, desajeitada como uma criança que acabou de tirar as rodinhas e segurança. A necessidade me fez desenvolver habilidades. Me tornei tão safa como os motoqueiros “vida loka” de São Paulo. Olhos e ouvidos atentos, pernas e braços cada vez mais ágeis para desviar dos caras que me fecham ou  vão colando na minha bike com más intenções.

Se um cara me ultrapassa quando estou a pé, ajo como se fosse a sombra dele. Ele diminui o passo, eu diminuo o meu. Ele para, eu paro. Se vira para a direita, viro junto. E por aí vamos…. Copio cada movimento dele até encontrar uma loja ou café onde eu possa entrar. Muitas vezes, vejo pela vitrine que ele continua rondando o local por um bom tempo. Teve até um atrevido que entrou atrás de mim numa ótica. Por sorte eu tinha comentado com a atendente que estava fugindo dele, então ela me levou até uma saída lateral enquanto ele fingia escolher armações.

SEM NOÇÃO

Essas são apenas algumas das histórias que aconteceram comigo. Fui abordada no trem quando estava acompanhada, em lojas e restaurantes (por funcionários em horário de serviço) e até em meu local de trabalho. Ouvi relatos ainda piores de outras garotas que, inclusive, tiveram que lidar com tentativas de estupro.

Infelizmente, as situações de assédio fazem parte do cotidiano das estrangeiras aqui no Sri Lanka e é muito difícil impor um limite. Muitas das minhas atitudes indiferentes e negativas verbais foram recebidas com sorrisos, como se significassem “continue insistindo”. Não adianta mudar o estilo de vestir – e também não acho justo, porque as garotas de classe média local se vestem da mesma forma e não passam, por esse tipo de constrangimento. O melhor que posso fazer é trazer o assunto à tona e alertar outras mulheres que vierem ao país.

Beijos, Prats

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