Não dá mais pra engolir…

Preciso falar sobre assédio e abuso de poder, os reais motivos de minha mudança.


Por mais que eu ame me aventurar pelo mundo, não foi para isso que saí tão de repente do Sri Lanka. Meu visto era válido até o final do ano e eu poderia planejar a próxima viagem com calma. Levava uma vida simples e limpinha, com vista para o mar, um cargo bacana, bicicleta à disposição. Mas eu não aguentava mais engolir certas situações, que são tão comuns na cultura local quanto curry e chá preto. A coisa se tornou insustentável quando fui assediada pelo dono do hotel onde eu trabalhava.
Me senti ameaçada e, ao mesmo tempo, cheia de dúvidas. Ele não tinha encostado um dedo em mim, já que havia câmeras pra todos os lados, “apenas” ficou insistindo para que eu fosse com ele para um quarto. Não seria exagero pensar nisso como assédio sexual? Haveria alguma culpa minha nessa história? Algo no meu look, talvez? Escaneei mentalmente o estilo ao das outras mulheres presentes na mesma festa e eu não destoava ali. Passei noites em claro, relembrando cada movimento e o conteúdo das poucas conversas que tivemos desde que entrei para a empresa. Será que tinha dado algum sinal errado, sem perceber? Não, nada disso era relevante.
A verdade é que um dono do hotel se sentiu no direito de escalar uma funcionária para diverti-lo aquela noite. Ele não teve pudores por estarmos na presença da bela mulher dele e, em frente a outros colegas de trabalho, me chamou para uma conversa em particular. Senti uma vibe estranha e fiquei onde estava, fingindo não entender que se tratava de uma ordem e ele não aguardaria para falar comigo no ambiente de trabalho. Mas ele voltou para me buscar, deixando bem claro que eu deveria segui-lo até o elevador. Ao descermos em um dos andares, me explicou sua urgência: “I fancy you” – algo como “estou a fim de você”– acreditando que esse tipo de argumento e seus olhares asquerosos me convenceriam a entrar num quarto com ele.
Eu realmente não tinha nada a ver com o caso, era simplesmente a pessoa que ele estava a fim de usar naquele momento. Minha cara de nojo não bastou para dissuadi-lo, nem o ridículo “não, obrigada” que soltei automaticamente. Ele tentou justificar que eu deveria entrar com ele para evitarmos as câmeras. Então respirei fundo e respondi com uma dignidade que ele não merecia: – Este é meu limite, estou indo embora e tudo que desejo agora é esquecer que isso aconteceu.
No dia seguinte ele me ligou se desculpando, claro que para confirmar meu silêncio sobre o caso. E o que mais eu poderia fazer? Morando e trabalhando nas propriedades do cara, só me restava ficar quieta. Procurar a Polícia não era opção já que, em tese, nada havia acontecido. Além disso, ele era poderoso, filho do ex-presidente. Fiquei sabendo que alguns funcionários do hotel tinham sido presos a mando dele. Até considerei contar para a esposa ou minha amiga jornalista, mas não tive coragem.
Por algum tempo, minha raiva se transformou em energia de trabalho. Entrei num ritmo doido e promovi dois eventos em tempo recorde. Sei lá o que se passava pela minha cabeça. Eu evitava pensar, mas sentia vontade de vomitar toda vez que via o nome dele – e era obrigada a copiá-lo em todos os meus e-mails. Outros dissabores pioravam essa sensação: a arrogância dos meus superiores, nossas divergências de mentalidade, a forma com que minhas idas e vindas para Colombo eram decididas arbitrariamente, sem considerar meus compromissos pessoais. Percebi o quanto o abuso de poder era banal na cultura da empresa, a ponto de ser repetido por meus colegas como se fosse um bom exemplo a seguir.
A coisa foi ficando intragável e as chances de piorar aumentavam, à medida que as visitas, reuniões e eventos se tornavam mais frequentes. O velho ditado “quem cala, consente” me assombrava. Por prudência, revisei meu contrato e não havia nada a me prender ali (antes de assinar, exigi que fosse excluída uma cláusula que daria a eles a posse do meu passaporte, ufa!). Então meu único plano foi comprar uma passagem rapidamente, colocar tudo na mala e resolver o resto pelo caminho. Viajei no meu dia de folga para estar bem longe quando dessem por minha falta. Fugi, sim, e só agora tive coragem de publicar meu relato.
Gravei um áudio com meu desabafo, onde menciono vários outros detalhes. Percebi o medo presente em minha voz, me fazendo dar muitas voltas até chegar ao ponto. Não sei quantas vezes travei diante da tela, escrevi e deletei, pensei em deixar pra lá… Por isso resolvi escancarar logo no título, pensando nas pessoas que eu poderia ajudar. Porque foi difícil encontrar respostas a meus questionamentos. Porque ninguém merece ficar assim vulnerável, nem em casa e muito menos em outro país. E porque é sempre bom lembrar que nunca, em lugar nenhum, se deve entregar o passaporte ao contratante.
Obrigada por me “escutar”. Fico à disposição para conversar mais sobre o tema, ou simplesmente ouvir quem precisar .
Beijos, Prats

 

3 comentários

  1. putz, que coisa horrível ter que passar por isso! sei bem o que é e vc fez o certo em sumir, pois, pelo ambiente que descreveu, não daria para ser de outro jeito. espero que esteja bem agora e que isso nunca mais se repita! boa sorte!

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  2. Feeeeeee, caraleo! (Pq sim, essa é a palavra) que Barra, que esperta e que força! Você é muito foda! De uma sensibilidade incrível e de uma coragem absurda. Parabéns pela trajetória e estamos aqui mesmo de longe, pra te ler, apoiar e comemorar suas vitórias. Sim, é uma vitória pra gente ter vc! ❤🙏🏾🌎

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