Da foto fake à Turismofobia: Onde vamos parar?

Já vou avisando: este texto não é somente sobre algumas fotos que estamos vendo nas redes sociais — ou sobre algumas coisas que não gostaríamos de ver…

Ele é um convite para olharmos para nossas próprias atitudes como viajantes e pensarmos em como lidar com a turismofobia.

É, infelizmente, isso é uma forte tendência do turismo atual. Assim como a ostentação.

Foi-se o tempo das câmeras portáteis, dos filmes fotográficos e da revelação cara, quando só grupos de turistas mais deslumbrados posavam em frente aos monumentos famosos.

Muita gente, inclusive, tinha vergonha de fazer e mostrar esse tipo de foto.

Coincidentemente, naquela época não era considerado ‘politicamente incorreto’ afirmar que a maioria desses grupos era de orientais. Ou dizer que os franceses esnobavam os estrangeiros, os italianos flertavam com viajantes, os espanhóis eram marrentos… e os brasileiros, uns folgados!

Será que agora a gente evoluiu DE VERDADE?

instalação artística - bairro chinês
Meu mico no Art District de Pequim, na China

A tecnologia evoluiu sim, obrigada.

Podemos facilmente fazer e compartilhar imagens em qualquer parte do mundo, organizar voos, reservar acomodações e passeios — tudo em poucos cliques.

Mas por quê ainda há tanta dificuldade em respeitar os lugares visitados, ter empatia com os moradores locais e maneirar na forma com que ocupamos temporariamente o espaço deles?

E não estou só apontando os outros.

Eu mesma já fiz foto pulando em frente a uma estátua de Buda antes de saber que isso é desrespeitoso para os budistas e montei em um búfalo na ilha de Marajó sem pensar nas consequências da exploração do animal no turismo daquela região.

Mas vamos por partes…

Turismofobia — definição

O termo ainda não está nos dicionários, mas podemos entender o conceito pala junção das palavras e de suas definições resumidas:

Turismo (ato de viajar apara entretenimento) + Fobia (medo, aversão)

Na verdade, o melhor nome seria Turistafobia pois a tendência reflete uma indignação das populações de diversas regiões do mundo diante das consequências do turismo de massa no local onde vivem.

Ou seja, sujeira, barulho, lotação nos meios de transporte e nos arredores das atrações turísticas, desrespeito aos costumes, alta de preços…. e a lista segue, incluindo milhares de pessoas fazendo selfies.

turista ocidental se cobrindo para entrar em um templo

Pense naquela muvuca nas águas, praças e ruelas de Veneza, nas filas quilométricas para entrar nos museus de Barcelona e nos preços estratosféricos em Paris.

Agora imagine ter nascido em um desses lugares. Como você se sentiria, no cotidiano, ao cruzar com uma legião de estrangeiros ávidos por explorar sua cidade?

Se no passado a gente chamava de ‘japa’ qualquer turista oriental com uma câmera na mão, agora os japoneses estão se irritando com o turismo em suas cidades mais visitadas, como Kyoto — e a pecha é politicamente incorreta ao quadrado, por se tratar de um povo famoso por respeitar e manter a limpeza dos lugares que visitam.

O fato é que precisamos levar tudo isso em consideração em nossas viagens.

Onda fake: fotos e lugares que não são bem o que parecem

Estes dias vi uma série de artigos sobre posts com manipulação de imagens feitas por viajantes.

Um verdadeiro show (de bizarrices) que muita gente segue e/ou tenta reproduzir e aprimorar — engrossando uma tendência que batizei de turismo-ostentação.

Mesmo agora que o Instagram não mostra mais o número de curtidas, a busca pelo clique insta-perfeito continua fazendo com que muitos turistas não apreciem tanto a beleza dos lugares e, sim, foquem naquilo que podem fazem por ali em termos de ângulos, filtros e programas de edição de imagens.

Muitas vezes, esses feitos contam com a colaboração de moradores locais, como no famoso truque da foto com espelhinho que causa filas e mais filas em Bali para um efeito de espelho d’agua fake. Isso é cobrado, mas não deixa de ser uma forma de exploração.

foto montagem para redes sociais
@erinleo

E o desfile de cópias não para. Mesmo que as pessoas chamem isso de reprodução de referências.

De novo, não posso me ‘incluir fora’ dessa tendência.

Ainda mais porque é quando viajo que tenho mais inspiração para mostrar o que vejo, do jeito que vejo. E claro que procuro fazer fotos interessantes, com bom enquadramento e até dando um tapinha de tecnologia para deixá-las mais bonitas.

Sempre peço autorização para clicar as pessoas e tento não atrapalhar quando clico meus pulinhos…, mas certamente já cruzei os limites da ostentação em alguns cliques postados nas redes sociais.

Ok, assumo essa culpa.

Mas nunca fiz nada que se compare a importunar as pessoas com pau-de-selfie ou drone, posar seminua em lugares públicos ou entrar em águas poluídas para sair bem na foto.

Como se tornar um(a) turista melhor

Não sou nenhuma especialista, mas viajo bastante e já trabalhei com turismo em dois países. Ao observar o comportamento de viajantes de todas as nacionalidades, pensei nesta lista de atitudes que podem servir de antídoto para a turismofobia:

  • Evitar comer ou beber andando pelas ruas, a menos que você veja os locais fazendo o mesmo;
  • Dar o destino certo a todo e qualquer lixo que você produza;
  • Preferir o comércio local em vez de comprar souvenires de plástico, que muitas vezes são produzidos em outros países, assim como roupas de marcas que exploram mão de obra barata.
  • Visitar lugares menos turísticos e/ou passear pelos bairros mais tranquilos das cidades — vale até fazer tour pelo supermercado 😊
  • Fazer conexões ‘ao vivo’ com os moradores locais, trocar ideias, quem sabe até se engajar em algum projeto de turismo social ou voluntariado.
  • Privilegiar tudo que torne a viagem mais sustentável, seja dispensando as sacolinhas plásticas, caminhando em vez de pedir um táxi, reduzindo o consumo de produtos industrializados, etc.
  • Fazer o que estiver ao seu alcance para evitar o turismo sexual
  • Respeitar, respeitar, respeitar. Do modo de se vestir ao que pedir no restaurante. Como se dirigir às pessoas e se comportar nas ruas, no transporte público, nas lojinhas…
  • Passar essas informações adiante, do mesmo jeito que você faz com as fotos nas redes sociais. Assim, podemos causar um impacto menor (e melhor) na turismofobia.

Aí sim: mais viajantes conscientes = menos aversão a turistas.

E para evitar as armadilhas do turismo-ostentação, a dica é usar a câmera ou celular como se estivesse fazendo fotos analógicas!

Beijos, Prats

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Crédito da foto de capa: Travis Saylor (Pexels)

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