Em que fase estamos, afinal?

Uma faxina mental sobre a pandemia 

Acho que em um futuro não muito distante — se é que se pode arriscar qualquer previsão — vão surgir diversas teorias sobre as fases do pós-pandemia de coronavírus: negação, aceitação, superação… além de uma legião de coaches e experts no assunto.

Mas quem pode definir em que fase estamos agora?

É o que tento descobrir aqui, organizando ideias para compreender melhor o momento e me preparar para o que está por vir.

Confesso que fico um pouco atordoada. Só que não estou sozinha nessa. Sim, porque enquanto muitas pessoas ficam no dilema de The Clash, outras preferem dançar se esbarrando nos outros.

E o que dizer desse começo de texto com referência confusa e em inglês? Sorry 😊 É que isso me faz pensar em uma música chamada Should I Stay or Should I Go? (que significa, literalmente, Devo Ficar ou Devo Ir) da banda de punk rock The Clash.

Aterrizando aqui de volta, mas ainda inspirada pelo universo musical, tem uma frase do rapper Emicida que traduz bem como estou me sentindo: “Não aguento mais ser testemunha da história”.

Pense bem… Não basta ter testemunhado os estragos do HIV? Perder ídolos, ver preconceitos pipocando mundo afora e constatar que até hoje a Aids não foi erradicada, apesar de ser considerada uma epidemia estabilizada no Brasil.

Parece que todo mundo já sabia como evitar a Aids, né? Mas ainda tem quem pegue, oooops, por um descuido ou ato impensado. E olha que a falha é “na hora H”, seja através de uma injeção ou relação íntima.

Então, o que esperar da proteção contra o novo coronavírus, que é muito mais abrangente em nossas trocas interpessoais e até na relação com a gente mesmo?

A mudança de comportamento é urgente, se joga na nossa cara junto ao crescente número de mortes dos infectados. E o que temos a fazer não se resume ao usar máscara, manter distanciamento social e higienizar qualquer superfície que possa ter contato com o vírus.

Temos que nos adaptar a novas maneiras de trabalhar, estudar, fazer compras, ajudar aos outros, nos cuidar, informar, divertir… Cada vez mais, precisamos apurar nosso olhar sobre a política, a ciência, o planeta em que vivemos. E a vida.

Só para começar.

que fase é esta? #opinião #pratserie_blog

 

Assim como em um processo de coaching ou consulta com um especialista, o primeiro passo é ter uma visão clara e objetiva da situação.

Aqui, agora, são quase 100.000 mortes notificadas como decorrentes da Covid-19. Nas últimas semanas, a doença tem tirado a vida de mil PESSOAS a cada dia.

E tem outro número que acho alarmante: estamos chegando a 150 dias do início da pandemia e ainda tem gente que minimiza os efeitos do coronavírus — fazendo eco a um terrível “e daí?”, do mesmo autor de “gripezinha”.

Para ser justa, preciso lembrar que também já ouvi frases mais animadoras vindas do governo.

Distraída em frente à TV, me espantei com um depoimento começando assim: “Hoje, depois da Covid 19…” (é, parecia que o personagem estava falando no fim da pandemia). Deu tela azul na minha mente, mal consegui prestar atenção no resto! Aí vi que era propaganda do Ministério da Saúde — aquele que está sem ministro #oficial há 2 meses. Então, fui pesquisar na web para assistir com calma.

Ufa! A pegada não é de fingir que nada acontece, a frase continua com “eu vejo que as pessoas se importam mais com o próximo”. Depois tem um blábláblá sobre investimentos, terminando por mencionar que já temos mais de 1 milhão e meio de recuperados.

Não sei se podemos confiar nesse número, mas não pretendo aprofundar esse debate aqui.

Em qualquer fase, a politização da crise só atrapalha

Eu acho. Além disso, o vírus não poupa quem acredita ou não em seu poder destrutivo, quem é de direita ou esquerda, contra ou a favor, idoso ou jovem, com comorbidades ou perfil de atleta.

Só arrisco dizer que o grupo que corre mais riscos é o dos mais pobres.

Em vez de ficar presa ao conceito de grupo de risco, acho melhor simplesmente focar no risco para cada uma das pessoas. Eu, você, nossos familiares, amigos e desconhecidos. Qualquer um pode se contaminar e contaminar os outros.

Aliás, manter o foco é fundamental para proteger toda essa gente. Por isso proponho recapitular as seguintes informações de “domínio público”:

  • Sim, há pessoas mais vulneráveis. Mas, até onde se sabe, todos podem pegar o novo coronavírus
  • Mesmo sem apresentar qualquer sintoma (nem um resfriadinho), uma pessoa infectada pode transmitir o vírus.
  • Quem não sofre com a doença ou consegue sobreviver à Covid-19 também pode ter que lidar com outros problemas decorrentes da infecção. Já estão em estudos os impactos no sistema respiratório, cardiovascular, neurológico, muscular etc.
  • A ilusão de imunidade ou de um tratamento eficaz à base de cloroquina — sem comprovação científica — pode se tornar um sério risco. Em um país com o perigoso hábito de automedicação, isso até atrapalha as pessoas que dependem do consumo regular desse tipo de remédio (que se torna mais caro e difícil de ser encontrado).
  • Ok, uma dose de expectativa positiva não faz mal a ninguém. Mas vale lembrar que ainda não podemos contar com vacinas ou com a tal da imunidade de rebanho.
  • A disseminação de notícias falsas sobre a doença é outro fator que só confunde e causa atrasos no enfrentamento. Cá entre nós, acho que esse fake “ismo” também é um tipo de pandemia…

Enfim, é importante ter um olhar crítico sobre o que é noticiado

Por mais que os números do Amazonas pareçam muito melhores agora, não podemos esquecer de que o estado foi um dos mais afetados no início da pandemia.

E qual o impacto da perda de um líder indígena, de um pajé ou ancião, em uma cultura que valoriza os idosos?  Qual a diferença entre uma multidão indo às compras, praias ou bares e uma fila para sacar benefícios ou pegar transporte público lotado? Como processar as fases do luto após atravessar uma imensa trilha de sepulturas e mal poder velar um ente querido?

Desculpe o drama, mas é para reforçar que as imagens e estatísticas que aparecem no noticiário representam vidas.

Todos temos responsabilidade em evitar a propagação do coronavírus

É preciso ter consciência dos fatos (e empatia) para realmente extrair algo de positivo desse momento tão estranho.  Sentir gratidão ao olhar para dentro de casa e para dentro de si. Descobrir como ajudar e se engajar no combate a essa doença, do jeito que puder. Inclusive, procurando o próprio bem estar físico, mental e emocional.

Mesmo sem teorizar sobre “as fases da pandemia”, estamos todos passando por fases ruins e fases melhorzinhas. Experiências diversas ao conectar e desconectar, falar e calar, errar e acertar.

Tempos de aprender, treinar, trocar, consertar, arrumar, bagunçar tudo de novo, cansar. Depois dormir muito para aplacar a ansiedade ou dar um jeito de não perder o sono por causa dela…

A imagem que me vem à cabeça agora é de uma grande peneira, onde sacudimos novos e velhos hábitos. Minha prática de yoga, por exemplo, está presa nos furinhos. Muito zen, ela. Agora danço por quase duas horas. Suo nas coreografias até parar de pensar.

Precisa ver como é fácil meditar depois disso!

Mesmo assim, tem dias que a mente não se esvazia. Gosta de viajar, ela. Tento dar uma escapada através de músicas, leituras e filmes. Ou embarco nas memórias, cruzando vielas de bicicleta, entrando no mar à noite, compartilhando um vinho com amigos, revivendo a sensação de terminar uma trilha e lembrar que a volta também tem seu grau de dificuldade.

Percebo que lidar com cada uma dessas fases demanda uma certa (re)construção. Um processo de auto ajuda que pode ser realinhado a qualquer momento, com um tiquinho de fé no coração e atenção ao que acontece dentro e fora da gente.

Quer saber? Já não me importa definir que fase é essa.

Rotular uma experiência assim é tão inútil quanto fazer conjecturas sobre o futuro ou se apegar a fórmulas do passado. A pretensão de entender e classificar o momento acaba de se espatifar na minha cara. Que agora está pronta para encarar os próximos desafios.

Beijos (virtuais), Prats

Foto da capa: Karine Basílio

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